América Latina

Peru: Dar aos outros como um modo de vida

A pandemia global que atingiu o mundo levantou algumas questões no fundo do coração das pessoas. Entre outros, levanta a questão de como lidar com o sofrimento e a dor dos outros: solidariedade ou indiferença?

Luis Gaspar-27 de Fevereiro de 2021-Tempo de leitura: 3 acta
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Foi em 16 de Março de 2020 que tudo mudou subitamente. O mundo estava em guerra contra um vírus desconhecido e nesse 16 de Março foi a vez do meu país, o Peru, iniciar uma das quarentenas mais rigorosas do mundo. Desde então, nada tem sido o mesmo. 

O ano a ser recordado

2020 será recordado como o ano em que sofremos um abalo como sociedade, e começámos a ver a vida de forma diferente. Parecia que tínhamos tudo o que precisávamos para viver sem sobressaltos, e de repente tudo mudou. Fomos confrontados com uma doença desconhecida. A incerteza e o medo transformaram-nos numa sociedade individualista. 

A pandemia trouxe à tona o nosso lado egoísta e revelou-nos como uma sociedade egocêntrica, não patética e desinteressada. Mas, tal como situações extremas expuseram as nossas fraquezas, elas também trouxeram à tona o nosso lado de solidariedade. Num país como o Peru com um sistema de saúde precário, a solidariedade tornou-se uma obrigação. As iniciativas para organizar e comprar - por exemplo - plantas de oxigénio e distribuir alimentos aos mais pobres foi mais do que um acto de sobrevivência. Num país como o Peru, onde o 70% da economia se baseia na informalidade, o encerramento total das actividades foi um tiro mortal para milhões de famílias. 

Solidariedade cristã

Foi assim que, no meio deste quadro sombrio, mais uma vez, paróquias, padres e os seus fiéis empreenderam a tarefa de alimentar os seus paroquianos mais necessitados e atingidos pela pandemia. Iniciativas "sopa dos pobres", onde centenas de pessoas recebem diariamente alimentos gratuitos, multiplicados por todo o país. Tal como nas piores crises económicas da história do Peru, a Igreja, que é mãe, voltou-se mais uma vez para o lado dos seus filhos mais necessitados.

E como o homem não vive só de pão, é imperativo que as autoridades civis reflictam sobre a importância da espiritualidade nos tempos graves que se seguiram à pandemia e aos milhares de mortes que ela trouxe consigo.

As Igrejas devem permanecer abertas com todos os protocolos de segurança em vigor. As pessoas precisam de rezar, de se sentir ouvidas por Deus, de receber conforto dos seus padres, que também muitas vezes arriscam as suas vidas visitando os doentes, com o único propósito de lhes trazer os sacramentos, a palavra de Deus e a esperança.

Uma pausa nas nossas vidas

Se a pandemia e a imposição de sucessivas medidas restritivas nos obrigaram a fazer uma pausa das nossas vidas agitadas, que esta pausa forçada nos leve a examinar e reflectir sobre a nossa relação com Deus e uns com os outros, com a nossa família e com aqueles que nos prejudicaram e aqueles que nos prejudicaram.

Esta emergência apresenta-nos um desafio como cristãos: encontrar uma nova forma de viver na entrega de nós próprios aos outros. A esta nova forma de viver - à qual as circunstâncias nos obrigam - acrescentemos a solidariedade, entregando-nos sem esperar nada em troca. Exploremos e não negligenciemos o bem que descobrimos dentro de nós próprios, porque Deus nos criou bem, mas por vezes não o exteriorizamos.

Solidariedade ou indiferença?

Portanto, vale a pena perguntarmo-nos qual tem sido a nossa atitude para com aqueles que têm menos, se temos sido indiferentes ou apoiantes, e a partir daí é relevante perguntarmo-nos o que faremos no futuro. 

Já descobrimos que juntos podemos alcançar grandes coisas, é tempo de nos aproximarmos, restaurar as nossas vidas e ajudar outros a restaurar as suas.

A cruz tornou-se evidente para nós neste período, mas a cruz é também a esperança da ressurreição. Não percamos a esperança, confiemos em Deus.

É essencial que a oração nos acompanhe nesta fase, pois neste diálogo sincero com o Senhor tomamos a Sua mão para lhe dizer que sem Ele nada podemos fazer, e com Ele podemos fazer tudo. Ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar, e ninguém é tão rico que não tenha nada para receber.

O autorLuis Gaspar

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