Vaticano

Gratidão, conversão e paz: os desejos do Papa para a Cúria Romana

O Papa Francisco realizou a sua tradicional reunião de Natal com aqueles que servem na Cúria do Vaticano. Conversão, gratidão e perdão foram o foco das palavras do Santo Padre na sua alocução deste ano.

Giovanni Tridente-22 de Dezembro de 2022-Tempo de leitura: 4 acta
natal da papa curia

O Cardeal Re dirige-se ao Papa ©YouTube Vatican News

Para o seu décimo discurso à Cúria Romana por ocasião da troca de saudações de Natal, o Papa Francisco escolheu a prática de um "exame de consciência" prolongado, baseado numa atitude profunda de gratidão, para promover uma verdadeira conversão dos corações e gerar sentimentos de paz no ambiente.

Ao receber os Cardeais e Superiores da Cúria Romana na Audiência, o Pontífice repetiu a prática da parrésia, ou seja, dizendo livremente coisas que estão erradas, mas propondo uma "solução" realista para cada queda que possa surgir na Igreja, e em particular na Cúria Romana.

Francisco falou primeiro da necessidade de "regressar ao essencial da própria vida", libertando-se de tudo o que é supérfluo e que impede um verdadeiro caminho de santidade. Para isso, contudo, é importante ter "memória do bem" recebido de Deus em cada passo da nossa vida, a fim de alcançarmos aquela atitude interior que conduz à gratidão.

O esforço é fazer, em todas as circunstâncias, um exercício consciente de "todo o bem que pudermos", superando o "orgulho espiritual" que nos faz acreditar que já aprendemos tudo ou que estamos seguros e do lado certo.

Este processo chama-se "conversão" e traduz-se na "verdadeira luta contra o mal", conseguindo desmascarar mesmo as tentações mais insidiosas, muitas vezes disfarçadas, que nos fazem "confiar demasiado em nós próprios, nas nossas estratégias, nos nossos programas". Sobre este ponto, o Pontífice citou especificamente o risco de "fixismo" (como se não houvesse necessidade de uma maior compreensão do Evangelho) e do "espírito pelagiano", bem como a heresia de não traduzir o Evangelho "nas línguas e modos actuais".

O Papa Francisco vê o maior exemplo deste tipo de conversão na Igreja no Concílio Vaticano II, a maior e mais recente oportunidade de "compreender melhor o Evangelho, de o tornar actual, vivo e operacional neste momento histórico". E é neste rasto que se insere a viagem sinodal actualmente em curso, porque a "compreensão da mensagem de Cristo é interminável e nos provoca continuamente".

Entre as palavras-chave usadas pelo Santo Padre para deixar de se converter continuamente está "vigilância" precisamente em relação a todos aqueles "demónios educados" que se arrastam para os nossos dias sem que nos apercebamos, causando entre outras coisas a ilusão de "sentir-se justo e desprezar os outros". É aqui que entra em jogo "a prática diária do exame de consciência", sugeriu Francisco, o que também nos permite abandonar "a tentação de pensar que estamos seguros, que somos melhores, que já não precisamos de nos converter".

No entanto, o Pontífice advertiu, aqueles que estão dentro da cerca, "no próprio coração do corpo eclesial", tais como os que trabalham na Cúria Romana, estão "mais em perigo do que todos os outros, minados precisamente "pelo demónio educado".

O Papa dirigiu um pensamento final à paz, com referência sem dúvida à Ucrânia e a todas as outras partes do mundo, onde no fracasso desta tragédia e com respeito por aqueles que aí sofrem "só podemos reconhecer Jesus crucificado". Mas mesmo aqui não devemos ser ingénuos, porque se estamos preocupados com a cultura da paz, devemos estar conscientes de que "ela começa no coração de cada um de nós".

Isto significa que mesmo entre "o povo da igreja", e talvez acima de tudo, devemos desarraigar "todas as raízes de ódio, de ressentimento para com os nossos irmãos e irmãs que vivem ao nosso lado".

"Que cada um comece por si próprio", acrescentou o Papa Francisco, citando os muitos tipos de violência que não envolvem apenas armas ou guerra, mas - precisamente tendo em mente os círculos curiosos - violência verbal, violência psicológica, abuso de poder ou a violência oculta dos mexericos: "Deitemos todas as armas de qualquer tipo".

Finalmente, o convite para praticar a misericórdia, reconhecendo que todos podem ter limites e que "não há Igreja pura para os puros", e para exercer o perdão, dando sempre uma outra oportunidade, uma vez que "se torna um santo por tentativa e erro".

O ano da Cúria: reforma e mais leigos

O Cardeal Giovanni Battista Re, Decano do Colégio dos Cardeais, cumprimentou o Santo Padre em nome da Cúria Romana. Giovanni Battista Re, Decano do Colégio dos Cardeais, saudou o Santo Padre em nome dos membros da Cúria Romana. Na sua saudação, o Cardeal Re recordou "a dramática situação que a humanidade está a atravessar, não só devido à pandemia de Covid, que ainda não terminou no mundo, mas sobretudo devido às trágicas guerras, que continuam a causar o derramamento de rios de lágrimas e sangue", e referiu-se em particular à guerra com a Ucrânia, que se aproxima do seu primeiro aniversário e em face do qual "Sua Santidade tem continuamente levantado a sua voz para deixar claro que "com a guerra somos todos derrotados" e para sublinhar que a guerra é uma loucura, um massacre inútil, uma monstruosidade, apelando energicamente ao fim das armas e a negociações de paz sérias".

Quanto à Cúria, o Decano do Colégio dos Cardeais salientou que "o ano que está a chegar ao fim continua a ser marcado pela reforma promulgada com o Constituição Apostólica Praedicar EvangeliumTambém sublinhou "a satisfação na Cúria pelo aumento do número de homens e mulheres leigos em vários cargos de responsabilidade importantes, que não pressupõem o sacramento da Ordem Sagrada". "Esta reforma", salientou, "compromete-nos a todos a uma espiritualidade mais profunda, a uma maior dedicação e a um espírito de serviço mais intenso, com um sentido íntimo de responsabilidade para com a Igreja e o mundo e com uma fraternidade mais intensa entre nós".

O Cardeal Re recordou também as viagens do Santo Padre ao Canadá, Bahrein e Malta, que demonstram o seu empenho em enfrentar "os turbulentos problemas da sociedade".

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