Experiências

Contemplação em tempos de WhatsApp

Os tempos em que vivemos caracterizam-se por um enorme alargamento das fronteiras da comunicação. Há já alguns anos, a tecnologia tem sido a espinha dorsal da vida de homens e mulheres.

Juan Carlos Vasconez-2 de Junho de 2017-Tempo de leitura: 9 acta

Somos todos desafiados a viver com a tecnologia, cujas fronteiras se expandem no nosso tempo, e a gerir positivamente a sua utilização, para que nos ajude a desenvolvermo-nos como pessoas e não se torne um muro que nos isole de Deus ou dos outros. 

Diz o Catecismo da Igreja Católica (CEC) que o coração humano é o lugar de morada onde estou, ou onde habito, o lugar da verdade, do encontro e do Pacto. É no coração que se realiza a comunhão com Deus e com os outros, que é o fim do homem, e do qual deriva a integração bem sucedida da pessoa, no corpo e no espírito. 

Para que o coração permaneça livre e aberto a Deus, precisa de se desligar de apegos terrenos, fios subtis, apegos mundanos, forças que o tornam insensível e letárgico. E, o catecismo conclui, embora não se possa meditar em todos os momentos, pode-se sempre entrar em contemplação, independentemente da saúde, do trabalho ou das condições afectivas. O coração é o lugar de busca e de encontro, na pobreza e na fé (CEC, n. 2710).

Esta é uma afirmação decisiva: o olhar contemplativo sobre o Senhor é a união amorosa com a vontade divina, para fazer o coração procurar e descansar em Deus, para descansar n'Ele; para o qual deve ser desligado de todas as coisas criadas. Embora se deva amar o mundo apaixonadamente, não se deve centrar a felicidade nos bens terrenos: estes são apenas isso, meios, e o coração não se deve apegar a eles, pois este afecto, que é desordenado, separá-lo-ia do Amor, não deixaria espaço para Deus, e acabaria por escravizar o coração. 

A liberdade de coração é uma graça de Deus que podemos pedir nas nossas súplicas, mas é também um bem a ser procurado pelo nosso desejo efectivo e pelos nossos esforços: tentando tornar os nossos afectos, os nossos poderes e os nossos sentidos cada vez mais atentos ao Senhor. 

Como consequência, desejamos livremente - porque nos apetece - que os nossos poderes e sentidos, o nosso coração, estejam livres de tudo o que possa ser um obstáculo, por pequeno que seja, ao amor de Deus. A liberdade do coração é a liberdade, a mestria para viver. "como aqueles que não têm nada, mas que possuem tudo". (2 Cor 6,10); é a liberdade e glória dos filhos de Deus, que Cristo adquiriu para nós pela sua morte na cruz, e que requer desprendimento para alcançar.

Este domínio interior que produz esta liberdade não é algo automático, mas é obtido através da repetição de actos positivos. É como uma ginástica do espírito que nos leva a viver desligados dos bens que utilizamos. Neste sentido, é também normal que os cristãos se perguntem como assegurar que a tecnologia não se torne uma escravidão, que o coração não se torne excessivamente apegado, que a sua utilização seja ordenada. Por vezes, pode ser necessário regulá-lo, para que possa ser santificado.  

Um contemporâneo nosso, São Josemaría, o santo do ordinário, como São João Paulo II o chamou, encorajou-nos a procurar a santidade no trabalho ordinário. Diz-se que colocou uma telha na sua sala de trabalho, ao lado de um crucifixo, com estas palavras: "Sanctis omnia sancta, mundana mundanis". (todas as coisas são sagradas para os santos; mundanas para as mundanas). E ele comentou que, quando se procura o Senhor, é muito fácil descobrir o quid divinum em tudo, de modo a não se afastar da lei de Deus e a comportar-se como um bom filho. 

Como o desenvolvimento da sociedade oferece novos meios técnicos para realizar um grande número de actividades, é libertador que o espírito de desapego se encarne em novas manifestações. Nisto reconhecemos uma alma prudente, uma pessoa que, estando atenta a Deus, é capaz de descobrir em novas situações o que é apropriado e o que não é. 

Concentre-se para rezar bem 

A concentração é o estado de uma pessoa que fixa os seus pensamentos em algo, sem se distrair. Algumas pessoas queixam-se de que quando começam a rezar, a sua mente logo vai para outro lugar. Porque rezar requer uma certa disciplina, domínio sobre os nossos sentidos e faculdades; em suma, para rezar devemos concentrar-nos, e para nos concentrarmos devemos disciplinar-nos a nós próprios.  

São Carlos Borromeo adverte que para rezar bem temos de nos preparar. Caso contrário, quando se vai elevar o coração a Deus, mil pensamentos vêm à mente e distraem-no da sua tarefa. É por isso que o santo nos ajuda a perguntar-nos: antes de ir ao oratório, o que fez, como se preparou, que meios utilizou para manter a sua atenção? 

Se quisermos concentrar-nos na oração, temos de proteger estes momentos e assegurar um mínimo de preparação. A recordação interior não é apenas durante a oração, mas também antes de começarmos a rezar; a recordação da imaginação, dos sentidos externos, etc., é essencial. Isto é muito ajudado ao impedir a imaginação de vaguear selvagemmente, por exemplo, ao não dedicar atenção ao dispositivo sempre que não temos nada para fazer, ou quando estamos um pouco aborrecidos.

De facto, as pessoas que têm uma vida interior procuram encontrar um meio feliz entre o "mundo rápido" da hiper-conectividade e o "mundo lento" da contemplação. Os dispositivos digitais actuais têm a vantagem de nos permitir estar constantemente ligados, mas esta condição - em si positiva - também se torna perturbadora, uma vez que reclama constantemente o nosso interesse. Portanto, cabe a cada um de nós decidir o que merece atenção e como encontrar esse meio de comunicação feliz.  

Uma dieta digital saudável favorece a aquisição de virtudes como a paciência, constância, simplicidade: o temperamento da santidade. Pode também evitar estados desnecessários de tensão, insegurança ou isolamento. 

Prudência e concentração

A prudência é a virtude cardinal que ajuda a discernir e distinguir o certo do errado e a agir em conformidade; é a capacidade de pensar, face a certos acontecimentos ou actividades, sobre os possíveis riscos envolvidos, e de adaptar ou modificar o comportamento de modo a não receber ou produzir danos desnecessários. Esta é uma habilidade muito importante para todos nós adquirir: pensar antes de agir.

A prudência refere-se ao conhecimento das acções que devemos desejar ou rejeitar. O homem prudente compara o passado com o presente a fim de prever e organizar uma acção futura; ele delibera sobre o que pode acontecer e sobre o que deve ser feito ou omitido a fim de alcançar o seu fim. A prudência implica conhecimento e discurso.

A um nível prático, para rezar bem, será muito útil ser prudente no mundo digital. É eficaz perguntarmo-nos que coisas são positivas, em que medida vale a pena a tecnologia ocupar o nosso tempo. Escolher alguns lugares onde a tecnologia não é convidada. Definir quando é preferível dispensar o contacto virtual porque o contacto físico é mais apropriado, porque é mais delicado, ou quando é necessário acrescentar gestos ou tons de voz, que ajudam a transmitir a mensagem de forma mais adequada.

Devemos também desenvolver a prudência quando agimos como destinatários. O Papa Bento XVI chamou a atenção para o facto de que muitas vezes "O significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem ser determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância e validade intrínsecas. A popularidade, por sua vez, depende frequentemente mais da fama ou de estratégias persuasivas do que da lógica da argumentação. Por vezes a voz discreta da razão é abafada pelo ruído de tanta informação e não consegue atrair a atenção, que é reservada, em vez disso, para aqueles que se exprimem de forma mais persuasiva". (Mensagem para o 47º Dia Mundial das Comunicações). As chamadas "notícias falsas", Notícias falsas inundaram a web, os meios de comunicação social forneceram uma plataforma com a qual factos, ou pseudo-factos ou pós-factos, se espalharam mais rapidamente e entre mais pessoas. 

É importante prestar atenção não só à veracidade da informação, mas também à sua actualidade. Quando nos perguntamos: porque não posso ver um vídeo de três minutos agora, não é apenas uma questão de tempo, mas também de não me habituar a seguir todos os estímulos que aparecem à nossa volta e nos distraem da actividade que estamos a fazer naquele momento.

Em suma, a prudência ajudar-nos-á a saber quando intervir para mudar ou evitar comportamentos que se tornaram comuns nas redes sociais; em suma, para tirar partido das tecnologias digitais, mas sem nos deixarmos governar por elas.

Conhecimento: studiositas vs. curiositas 

É São Tomás de Aquino que define estes dois termos. Primeiro, ele define o studiositas como "um certo interesse entusiástico em adquirir conhecimento das coisas".. Quanto mais intensamente a mente se aplica a algo por tê-lo conhecido, tanto mais o seu desejo de aprender e de saber se desenvolve regularmente. A aplicação firme do conhecimento por parte do intelecto cresce com a prática; assim, o desejo de saber supera o desejo de conforto ou simplesmente de preguiça.  

O segundo termo é o curiositas, explicado como "inquietude errante do espírito".Manifesta-se na insaciabilidade da curiosidade, inquietação do corpo e instabilidade do lugar e determinação que é frequentemente a primeira manifestação da acedia: uma tristeza do coração, um peso do espírito humano que não quer aceitar a nobreza e dignidade da pessoa humana que está intimamente relacionada com Deus. 

Nunca antes na história foram disponibilizados a ninguém tantos dados de natureza pessoal ou íntima; tal informação pode facilmente despertar a curiosidade. A inovação tecnológica levou a uma mudança para produtos e serviços cada vez mais triviais, ligados à cultura da imagem e do eu. Mais uma vez, a temperança vai ajudar-nos a escolher. Nem tudo o que é publicado me interessa. Só porque está na web e é disponibilizado - mesmo que seja pelo interessado - não significa que haja a obrigação de o conhecer, de o ver, de o ler, etc. 

Num mundo em que o interesse, mesmo o interesse mórbido, em unedificar os acontecimentos prevalece frequentemente, ou quando muitos se adiantam aproveitando a curiosidade desatada de tantos, vale a pena agir com fortaleza para não cair nesta preocupação obsessiva de saber tudo. Uma pessoa com uma aparência exterior, dominada pela curiosidade - que se manifesta, por exemplo, no desejo de ser informada sobre tudo, não querendo "perder nada" - terá muito mais dificuldade em concentrar-se na oração. 

Conselhos práticos 

Seguem-se algumas "boas práticas" de experiência pessoal que podem ajudar a libertar o coração e facilitar a concentração para uma melhor oração.

Quase todas as possibilidades que me são oferecidas pelas tecnologias digitais são boas, mas nem todas elas me convêm. A resposta de S. Paulo a alguns dos Coríntios, que estavam a tentar justificar-se, é muito esclarecedora: "...Eu não sou uma pessoa digital".Tudo é legal para mim. Mas nem tudo é adequado. Tudo é legal para mim. Mas eu não serei dominado por nada". (1 Cor 6:12). Um cristão que procura a santidade não se pergunta simplesmente se é legal - se é possível - fazer isto ou aquilo. O que deve ser perguntado é: será que isso me aproximará de Deus? Será saudável tomar algumas pequenas decisões que nos ajudarão a preservar a nossa atenção para as coisas mais importantes. Decidir quais as aplicações a utilizar e quais os sites a seguir pode ter um impacto surpreendentemente poderoso na utilização do tempo.  

Na medida do possível, devem ser evitadas distracções desnecessárias. Isto pode ser feito desligando alertas digitais desnecessários, cancelando notificações de mensagens, e-mails e novas interacções. Ninguém precisa de alertas instantâneos do Facebook, Instagram, Twitter, etc. Eles apenas distraem e distraem. Tudo o que eles fazem é distrair e perder tempo, verificando incansavelmente o dispositivo. 

Vale a pena estabelecer prioridades, desinstalando do smartphone jogos ou sites de redes sociais que estão lá para preencher o tempo ocioso ou para "matar o tempo" em frente ao ecrã. Isto não só poupa a vida útil da bateria, como também evita estas tentações perturbadoras, tornando mais fácil a concentração. 

Pode fazer sentido escolher uma forma de fazer as coisas e tirar partido disso. Quanto maior for o leque de oportunidades para realizar uma tarefa específica, mais difícil é escolher no momento em que se deve concentrar. Escolhendo o direito aplicações que são instalados, evitando duplicações e sobreposições. 

É bom lembrar que as redes sociais são concebidas para ocupar uma grande quantidade de tempo dos utilizadores. Entrá-los é sempre uma experiência nova, porque "amigos" ou "contactos" são uma fonte constante de notícias que exigem atenção: actualizações puramente textuais ou visuais (como no caso de uma fotografia ou de um álbum de fotografias), ou mesmo audiovisuais (videoclipes). Se não forem estabelecidos limites, eles ocuparão todo o tempo disponível.

Por conseguinte, será vantajoso aplicar um pouco de ordem com as redes sociais. Por vezes é possível iniciar sessão após um certo tempo, ou definir um certo número de vezes por dia para olhar para eles. Defina um tempo máximo de utilização diária para cada rede social, para que não ocupem todo o seu tempo livre. É importante ler livros, consumir conteúdos mais profundos que normalmente necessitam de mais tempo para a abstracção, respeitar os tempos em que estamos face a face com os nossos amigos e família.

Também será útil ter cuidado com a forma como interage dentro das redes sociais, pois deve ser marcado pela prudência, o que muitas vezes aconselha-o a concentrar-se mais na qualidade das suas próprias ligações do que na quantidade. É mais importante seleccionar temas sobre os quais vale a pena escrever, e pensar neles o suficiente para que as contribuições sejam valiosas, do que dizer um monte de coisas insignificantes a grande velocidade.

Para rezar bem, é muito importante cuidar do seu sono. smartphoneO despertador antes de dormir pode afectar significativamente a nossa qualidade de sono e diminuir a melatonina que o nosso corpo produz. Vale a pena comprar um despertador e carregar dispositivos electrónicos fora do quarto, pois reduz a tentação de o verificar à noite ou logo pela manhã. Também pode valer a pena instalar um app como Tempo de Qualidade para ter um horário automático de desligar à noite e voltar a ligar de manhã. 

É essencial respeitar o silêncio. Em particular, durante os nossos momentos de oração, Santa Missa, Terço; para os quais será conveniente usar o modo avião ou simplesmente deixar o smartphone fora do local onde estamos a rezar. Além disso, o auto-conhecimento é importante na vida de cada pessoa, e para nos compreendermos melhor precisamos de silêncio, o Papa Francisco avisa-nos: "A velocidade com que a informação flui ultrapassa a nossa capacidade de reflexão e julgamento, e não permite uma expressão medida e correcta de si próprio"..

O silêncio é indispensável para aprender a rezar, para manter uma vida contemplativa. São João Paulo II falou de "zonas eficazes de silêncio e disciplina pessoal, para facilitar o contacto com Deus".. As pessoas que se esforçam por ser contemplativas no meio do barulho da multidão, sabem encontrar o silêncio da alma em permanente conversa com o Senhor. 

Ter cuidado à hora das refeições. Evitar deixar os dispositivos digitais à vista durante as refeições ajuda a manter a conversa e ajuda a manter o ambiente familiar. De acordo com vários inquéritos, verificar informações ou responder a mensagens à mesa está a tornar-se um sinal de falta de educação. Além disso, facilita espaços ou momentos em que os dispositivos electrónicos não são utilizados; ajuda-nos a melhorar a nossa temperança e a saber como prescindir deles quando não são necessários.

Finalmente, recorremos sempre a Nossa Senhora, para lhe pedir que possamos adquirir essa vida contemplativa, para seguir o seu exemplo e para apreciar as coisas importantes, reflectindo sobre elas no nosso coração.

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