Amas-me mais do que aquelas boas acções que fazes?

A vida cristã não se baseia em "fazer coisas boas". Isso é bom, mas acima de tudo, os cristãos respondem com as nossas vidas a uma escolha de amor feita no Baptismo. Dizemos sim a Deus, escolhemos Deus acima de tudo, até nós próprios.

7 de Setembro de 2021-Tempo de leitura: 3 acta

Muitas vezes me lembro do relato de uma amiga sobre a sua conversão. Ela chamou-lhe isso, a sua conversão, como se tivesse encontrado Deus "tudo de novo". E ela não era uma pessoa distante, longe disso, uma jovem de missa diária, de oração frequente... um "melro branco", poderíamos dizer... e ela foi convertida.

Porque todos nós, no final do dia, temos um São Paulo interior que por vezes cai de um cavalo, por vezes de um banco de igreja onde adormecera, ou talvez numa poça... Neste caso foi numa viagem à Terra Santa, à beira do Mar de Tiberíades quando, ouvindo o relato do Evangelho de João, reparou que, como Pedro, Cristo lhe perguntou, directamente, sem anestesia: "Amas-me mais do que estes?"Ele tinha-o ouvido centenas, milhares de vezes, na Missa, lendo o Evangelho, em retiros e em várias peregrinações.

Mas as palavras voltaram-se - "conversus" - para ela e, pela primeira vez, ela percebeu que sim, Deus estava de facto a perguntar-lhe se ela realmente o amava. Deus já sabia que ela era boa, que tentava fazer as coisas certas, que até era "exemplar", mas trouxe-a cara a cara com a verdadeira razão que a levou a viver: o amor.

Amas-me mais do que estes, mais do que estes, mais do que a vaidade de ver como és grande, mais do que todas as coisas boas que fazes...?

E ali, naquela praia não paradisíaca, aquela boa pessoa virou-se.

Ele tomou a razão do amor a Deus, que é o que importa nesta vida e a medida do julgamento na eternidade. Continuou a ir à missa, continuou com a sua vida habitual, mas sob uma perspectiva diferente: a de Cristo amoroso.

A vida cristã não é sobre "ser bom" ou "sentir-se bem". A base, o que lhe dá sentido, é escolher Cristo, amar Cristo. Como afirma Bento XVI, "não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas por um encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo horizonte à vida e, com ela, uma orientação decisiva".

Estamos neste mundo por amor (por amor de Deus, por amor dos nossos pais na maioria dos casos, por amor daqueles que cuidam de nós) e por amor, e eis que a sequência é bastante semelhante. Esta máxima é clara para todos nós, e no entanto o seu esquecimento é recorrente na história da humanidade: esquecemos que Deus nos ama e distorcemos, manipulamos e degradamos o significado do amor e depois escolhemos outras coisas, que não devem ser más... mas que não são Deus.

Com grande habilidade, o Cardeal relatou a este respeito Fco. Xavier Nguyen Van Thuan uma luz que tinha, quando, como jovem bispo, foi preso a 1.700 km de distância da sua diocese numa cela minúscula. Ali, sofrendo por todo o bem que tinha começado a fazer e já não podia continuar: "Uma noite, do fundo do meu coração ouvi uma voz que me sugeria: 'Por que te atormentas assim? É preciso distinguir entre Deus e as obras de Deus. Tudo o que fez e deseja continuar a fazer: visitas pastorais, formação de seminaristas, religiosos e religiosas, leigos, jovens, construção de escolas, de lares para estudantes, missões de evangelização de não cristãos... tudo isto é uma excelente obra, são obras de Deus, mas não são Deus! Se Deus quer que abandone todas estas obras, pondo-as nas suas mãos, faça-o rapidamente e tenha confiança n'Ele. Deus fará infinitamente melhor do que vós; confiará as Suas obras a outros que são muito mais capazes do que vós. Escolheste Deus sozinho, não as tuas obras".

O autorMaria José Atienza

Editor-chefe da Omnes. Licenciado em Comunicação, com mais de 15 anos de experiência em comunicação da Igreja. Tem colaborado em meios de comunicação como COPE e RNE.

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